


KUNI,
O PESCADOR DOS PAMPAS
PRATIQUE A PESCA ESPORTIVA!
IN NATURA, PRATIQUE O PESQUE E SOLTE, OU RESPEITE OS LIMITES ESTABELECIDOS POR LEI, PARA CONSUMO EXISTEM OS PESQUES & PAGUES.
Rio Grande do Sul - Brasil

Pesca & Natureza
UMA HISTÓRIA DE PESCADOR
O texto a seguir foi escrito por mim, todos direitos autorais pertencem a minha pessoa.
Obs.: Essa é uma história fictícia, portanto qualquer coincidência é mera semelhança; ou não!
“UMA HISTÓRIA DE PESCADOR”
Por: Luis Kunimitsu Makino
Essa é uma história de um velho pescador, que se vê diante uma batalha nunca antes experimentada, numa luta envolvente e empolgante, que vai contagiar o leitor e aprisioná-lo de início ao fim, deixando aquela vontade de querer sentir uma briga com um peixe de verdade, mesmo para aqueles que nada entendem pescarias.
Este livro, por ser uma história fictícia, não procurou relatar fatos geograficamente correto, portanto aconselho o caro leitor a se ater apenas nas ações do personagem não levando em conta identificar o local onde a história se desenrola, apenas tente imaginar mentalmente. E também, por pouco ou nenhum conhecimento técnico e prático na arte de pescar, podem conter alguns pecados e exageros nos relatos do decorrer das narrativas, tornado assim, esta obra em uma verdadeira história de pescador.
Se você conseguiu ler até aqui, certamente conseguirá ler até o final. Desejo a todos uma boa leitura; e que se conseguirem, tirem algum proveito deste livro, ou então leiam, nem que seja só para perder o seu tempo.
Obrigado!
O autor.
Justiano, era um advogado aposentado, passou boa parte de sua vida na defensoria pública do Estado, defendendo sempre, àqueles que julgava injustiçados, em toda sua carreira, perdeu apenas uma causa, causa essa, que o seu cliente confessou sua culpa, mas mesmo assim, Justiano ainda conseguiu que sua pena fosse amenizada.
Era um senhor viúvo há pouco mais de um ano, sua mulher faleceu num acidente de avião quando viajava para a Europa, onde seus dois filhos estão residindo, Justiano ainda tem uma filha que está cursando direito na Universidade Federal. Logo após a morte de sua esposa, Justiano tornou um homem calado e até meio sombrio, deixou de exercer a profissão, se sentiu num vazio, pareceu perder a vontade de continuar vivendo, muitos achavam que ele havia ficado louco, outros pensavam que a tristeza e a solidão o consumira e outros não estavam nem aí, pois não tinham nada a ver com isso.
Hoje o velho advogado vive retirado no interior, mora em uma cabana à beira de um lago perto das montanhas e das florestas com pinheirais enormes, campos que vão até se perder de vista, ali ele se sente em paz, como se estivesse no paraíso, alienado do mundo globalizado, sem rede de TV, sem Internet, sem rádio, às vezes lia algum jornal que os filhos mandavam, ao qual ele utilizava para acender a fogueira ou para outras coisas… Mas essa escolha não se deu por acaso, uma vez quando o trabalho havia deixando com um stress em alto nível, se retirou de férias na Europa, junto com seus filhos, onde viajavam pelas belas paisagens europeias, onde conheceu um lago em que aprendeu a arte da pesca, desde então se interessou pela atividade e se tornou um adepto da pesca esportiva. Naquela época viu seus filhos fisgarem uma espécie de 20 Kg, a luta com o peixe durou quase meia hora, e naquele mesmo instante ele ficou empolgado com a arte, e tamanha era a emoção que até pediu para participar da batalha; pegou a vara em suas mãos e sentiu toda a adrenalina percorrendo seu corpo, o peixe puxava de um lado para outro, parecia que queria levar junto o seu oponente; com medo de perder a raridade, entregou o serviço a seus filhos, que já tinham mais experiência no assunto, mas encantado mesmo ele ficou, quando ergueram aquela maravilha que deveria ter um metro de comprimento, neste momento decidiu que ao se aposentar passaria o resto de sua vida à beira de um lago. Em várias ocasião os três saíam para pescarem juntos, passavam noites em volta de lagos, passavam horas dentro de barcos, levavam inúmeras picadas de mosquitos, mas nunca mais pegaram uma espécie igual àquela.
Hoje, ele está ali, sentado a beira do lago, fumando um cachimbo e olhando para o infinito, o olhar parece perdido em algum lugar, ora ou outra um peixe pula faceiro em algum canto do lago chamando sua atenção, parece que eles ficam provocando, convidando para um duelo, e ele fica imaginando os insultos vindo dos peixes: “Ó seu velho gagá!!”; “Você não me pega, seu velho ignóbil!!”, “Eu to aqui oh! velho biruta!!”, “Como é? Vai ficar só coçando?”...
Com essas frases na cabeça, seus olhos começaram a brilhar, ganharam vida, e no lábios brotou um sorriso maroto, como quem diz em resposta: “ Podem me esperar!”. Passou o resto do dia arrumando o material, organizando sua iscas e fazendo outras; é, uma vez, quando estava acampando na beira de um lago em Toronto, um velho pescador o ensinara a fazer suas próprias iscas, ele contou que havia época em que era mais difícil pegar os insetos que o próprios peixes: “ – Quando tem, não tem; quando não tem, tem!” exclamava ele, parecia uma charada, mas depois explicou: “– Parece que os insetos e as larvas sabem quando é temporada de pesca e somem tudo, tinha dias que eu levava horas atrás de iscas, e não conseguia nem uma mosca, foi então que resolvi experimentar as iscas artificiais, mas eram muito caras e eu não tinha condições de adquiriras, foi então que comecei a inventar minhas iscas, e para minha surpresa, na primeira vez que experimentei, lancei a isca e puxei e quando ela estava para bater na superfície novamente, me salta uma truta de três quilos e abocanhou o anzol, o susto foi tanto que quase cai na água, daí então só tenho usado minhas iscas, e com elas até dá pra ganhar um dinheirinho vendendo para outros pescadores...” falava o velho, e como ficaram muito amigo, saiam para pescar juntos, e com ele Justiano aprendeu muito sobre pesca, peixes e sobre dias ideais para pescar através da lua. O velho também sabia como preparar um bom peixe na brasa, e eles passavam horas em voltas da fogueira conversando e, o velho contava várias histórias incríveis, que dava até para duvidar de sua veracidade, a mais incrível era de um peixe que nunca conseguiu tirar das águas, mas que ele julgava ser o sempre o mesmo, pois sempre agia da mesma forma, puxava para o mesmo lado cada vez que fisgado, e lutava como um touro na arena, e sempre após horas de luta conseguia de alguma forma se desvencilhar do anzol e fugia “sorrindo”.
À noite chegou, e Justiano terminou a função, preparou seu jantar, uma ligeira refeição, apreciou um vinho do porto, diga-se de passagem que ele era um bom apreciador desse líquido de uva pisoteado e fermentado, depois acendeu um velho cachimbo que já pertenceu ao seu avô e que foi passado de pais para filhos (a organização mundial da saúde adverte: Fumar é prejudicial a saúde e causa câncer nos pulmões.), e ficou admirando a noite sentado numa cadeira na pequena varanda da casa, olhando a lua e as estrelas, concluiu que a manhã seguinte seria um bom dia para pescar. Nisso, num galho de uma árvore próxima pousou uma coruja, os dois ficaram se encarando por um longo período, como se estivessem fazendo aquela velha brincadeira de criança da “vaca amarela que cagou na panela...”, de repente, como se estivesse indignada com a derrota, a ave alçou um vôo rasante passando centímetros da cabeça de Justiano. Para ele, aquilo era um sinal das boas batalhas que ele teria pela frente, mal ele sabia o que o esperava…
Na manhã seguinte, ele acorda bem cedo, prepara o seu café com leite desnatado, saboreia uma fatia de pão caseiro com um queijo derretido por cima e depois come um mamão para facilitar na saída. Dá uma espiada no lago pela varanda e vê alguns peixes pulando na orla do lago, como se estivessem dando um bom dia, mais adiante alguns quero-quero voavam em círculo com o seu tradicional canto, mas um barulho na moita ao lado lhe tira a atenção, um pequeno gambá ainda dá uma última volta antes de se recolher, mas essa pode acabar sendo a sua última volta na vida, pois não muito longe dali uma serpente se prepara para dar um bote fatal em sua vítima, Justiano observa silenciosamente o desfecho da situação: O Gambazinho despreocupado, caminha lentamente em direção da morte certa, e num piscar de olho com muita agilidade a serpente voa abocanhando em cheio bem no pescoço do animal que cai e se contorce, enquanto a peçonhenta enrosca o resto de seu corpo em volta do bichinho sufocando-o. Não demora muito, Justiano é obrigado a entrar na casa, pois o animalzinho no momento de perigo soltou a sua famosa defesa, aquele odor tão conhecido de todos. Justiano aproveitou e foi para o banheiro fazer suas necessidades fisiológicas ...
O sol já esquentava a manhã, apesar de ainda ser 6:30 hs, Justiano apanhou seu material e saiu em direção ao lago, ainda dava para sentir o forte cheiro do gambá, mas não tinha vestígios dos animais, logo ele estava a beira do lago lançando sua linha em busca de algum peixe que estivesse afim de brigar. Lançou uma, duas, três, e somente na quarta vez sentiu algo puxar a sua linha, mas sem fisgar nada, continuou ali, por mais alguns minutos, e nada, quando pensou em trocar de lugar, conseguiu fisgar um pequeno peixe, tinha tamanho da palma de sua mão, tirou do anzol e jogou na água dizendo: - Vá, vá crescer mais um pouco, peixinho! Passou mais algum tempo por ali, mas só pegou peixes pequenos, que não ofereceram muita resistência nem emoção. O sol já batia forte, quase ofuscando a vista, apesar dos óculos escuro e do chapéu que usava. Justiano resolveu encerrar as atividades pela manhã e retornou à cabana para preparar seu almoço. Mais tarde voltou ao lago, mas o dia não foi muito diferente, conseguiu alguns peixes de pouco mais de 500 gamas, que levou para fazer um assado para sua janta, seu primeiro dia de pesca não foi nada animador, assim como os dias que se seguiram, para quem queria uma briga com a natureza, parece que não encontrava ali, um adversário a altura.
Noutro dia resolveu tentar se aventurar mais acima, onde havia um corredeira que desembocava num lago, as águas vinham das montanhas, ele não tinha estado ali antes e acabou achando um belo local, havia muitas pedras e árvores caídas em volta do que parecia um grande reservatório ao pé de uma pequena queda d’água. Preparou o seu material e no momento que lançou a linha em direção a cachoeira, viu uma imagem que o paralisou de susto: Sob uma pedra, perto de onde a água caia um enorme urso preto estava buscando alimento, por sorte ele estava na margem oposta do lago, pensou Justiano, recuperando do susto, mas ainda meio tenso, ele ficou sentado e quieto, apenas observando o urso; o animal parecia ignorar a presença do homem, estava mais interessado em pegar seu almoço; imóvel, com o olhar fixo na água, acompanhava sua presa e num aceno rápido coloca a pata na água jogando fora um grande peixe, este que cai no gramado e começa a saltitar em direção ao lago, mas num pulo a fera esta em cima dele com sua duas patas, e abocanhando-o entra no interior da floresta para apreciar seu suculento almoço. Pelo tamanho do peixe, Justiano avalia ter uns três quilos, mas não consegue identificar a espécie de peixe, talvez fosse um salmão ou uma truta ou qualquer outra coisa… Agora, já sem a companhia do urso, e mais sossegado, Justiano começa a sua pescaria, na esperança de fisgar um igual ao do seu concorrente. Nas primeiras horas não consegue nada, nem um sinal de vida, ele troca as iscas, tenta vários tipos e nada. “- Será que aquele urso desgraçado pegou o único peixe daqui?”, xingava ele. Já um tanto desanimado, sentado sob uma pedra, largou sua vara para preparar seu fumo, foi quando um forte puxão na linha interrompeu a sua atividade, e no momento em que foi segurar a vara um novo puxão, desta vez mais forte, a ponto de levar a vara para dentro do lago, impotente, o homem ficou vendo seu material deslizar sob a superfície fazendo “esses” e só parar quando enroscou nos galhos das árvores caídas, desesperado procurou algo para resgatar seu material, voltou com um pedaço de taquara e conseguiu tirar a vara da água, mas o peixe já tinha ido embora, o velho senhor se sentiu provocado, e estava decidido a pegar o atrevido de qualquer maneira, ficou ali tentando até o anoitecer, mas o peixe não retornou, como ele não estava preparado para a noite, não teve outro remédio senão retornar para casa, mas saiu dizendo: “- Amanhã eu volto, e vou te pegar seu danado!!”. E dia após dia ele retornava ao local e ficava horas tentando e esperando, chegava cedo da manhã e ficava até altas horas da noite, passava frio e fome na obsessão de pegar o peixe, até pegava peixes de bom tamanho, mas ele sabia que não era aquele peixe que escapara...ele sabia...ou achava que sabia. Até que um dia ele pegou, quando estava meio desconcentrado, um puxão quase lhe tira a vara das mãos, no susto ele segura firme e sente que do outro lado está algo com uma força descomunal, ele é obrigado a soltar mais linha, e peixe puxa com toda sua força, tenta de qualquer maneira se enredar no meio das árvores, mas com muita habilidade o pescador consegue evitar e controla os movimento do peixe, mantendo-o firme na linha, recolhe alguns metros de linha, mas é obrigado a soltar outros, e os dois ficam nesta disputa que já dura quase quinze minutos, Justiano ali firme, e sorrindo por dentro, satisfeito com o seu feito, ainda não tinha visto o peixe, mas julgava ter uns 20 kg talvez mais de 1 metro de comprimento, a luta estava boa, aos pouquinhos o bicho vinha se aproximando, de vez em quando se debatia por baixo da superfície, o velho lhe dava mais linha, quando ele já imaginava-se erguendo o peixe, sente que este começa a puxar para um mesmo lado, seguindo numa mesma direção, ele vê a linha correr horizontalmente a sua frente, parece que o peixe sabe aonde esta indo, derrepente para e a linha trava, Justiano não consegue mais sentir movimento algum, tão menos puxar a linha, o peixe parece que consegue se enroscar em alguma coisa no fundo lago: “- Desgraçado!!! Se prendeu no mato!!!” - xinga o velho, ele fica ali parado tentando entender o que aconteceu, do outro lado da linha parece não ter vida, nenhum sinal do peixe, ainda esperançoso o velho aguarda mais algum tempo, mas depois de meia hora ele se convence que não há outro jeito senão cortar a linha, então enrosca ela no braço e puxa, logo a linha se afrouxa acabando de vez com as últimas esperanças do velho. Justiano ficou ali, parado, com cara de tacho, pronuncia alguns palavrões, os quais não posso descrever aqui...ele mal pode acreditar que conseguiu perder um peixe daqueles, será que foi falta de experiência, pensa ele enquanto termina de enrolar o que restou da linha. Agora mais do que nunca ele está decidido a pegar o peixe de qualquer maneira. Senta-se debaixo da sombra de uma árvore e arruma sua próxima isca, mas também aproveita para se recuperar da decepção, pois sabe que tão logo o peixe não morderá novamente, “O peixe deve estar mais exausto do que eu, afinal quase foi fisgado, seu coração deve estar na boca, saltando para fora.” imagina o velho, sorrindo consigo mesmo. Ele fica ali por mais algumas horas, já era tarde, pega alguns peixes para preparar à noite e retorna para a cabana, apesar de frustrado ele também estava faceiro, pois teve um dia e tanto, teve uma bela batalha, é verdade que saiu derrotado, mas para ele era apenas o início, como diz o velho ditado popular: “Perdeu a batalha, mas não a guerra!”.
Chegando em casa, a primeira coisa que fez, foi arrumar uma linha mais grossa, estava decidido a não cometer os mesmos erros novamente, deixou tudo pronto para o dia seguinte, para a próxima batalha...depois acendeu uma fogueira limpou os peixes e espetou no espeto que providenciara, enquanto esperava o peixe assar, sentado na cadeira acabou adormecendo, tamanho era o cansaço que estava, mas sua soneca não durou muito, subitamente ergueu os braços para o alto, o movimento brusco o derrubou da cadeira caindo de costa, levantou meio zonzo, estava sonhando que estava novamente na luta com peixe, meio dolorido com a queda, ajeitou a cadeira e revirou o peixe que estava na brasa, o aroma estava delicioso. Neste momento se lembrou que havia chegado uma carta de filho, apanhou-a e abriu, começou a ler calmamente, mas só nas primeiras linhas, logo seu estado de espírito foi mudando, na carta dizia que seu primeiro neto havia nascido e que todos estavam esperando a visita dele, os olhos marejaram de emoção, o primeiro neto que ele e a falecida Direitina tanto estavam esperando finalmente chegara, ele não sabia descrever a sensação de ser avô, Ah! como gostaria que Direitina estivesse ali com ele para desfrutarem da mesma sensação, mas o destino foi cruel com ele e talvez agora o esteja recompensando, trazendo uma nova vida, um novo sentimento e também mais um estímulo para que ele continue lutando por algo, mas tinha que ser justo agora, pensou ele lembrando da grande pescaria que teria que deixar para trás, mas o peixe podia esperar –“Só espero que o urso não o pegue primeiro.”- pensou o velho.
No dia seguinte, Justiano arrumou uma pequena mala e partiu para a cidade, de onde embarcou para a casa de seu filho. A viagem durou quase cinco horas, durante todo o percurso ele ficava imaginando a cara do bebê, alternando com a lembrança do peixe que estava esperando seu retorno, certamente saltando feliz sob o lago. Chegou no meio da tarde, e logo foi conduzido e apresentado ao recém nascido, era uma unanimidade entre os presente, o garoto era a cara do vovô, e para a surpresa dele, decidiram que ele colocaria o nome no bebê. Justiano não tinha pensado em nenhum nome, realmente foi pego de surpresa, “–Tudo isso justo agora, justo agora!” resmungava para si mesmo, mas deixou escapar o “Justo agora” que chegou aos ouvido de seu filho que repetiu “- Justo Agora!”, os dois se olharam e repetiram simultaneamente “- Justo Agora!!” e assim ficou decidido o menino se chamaria “Justo Agora”, a mãe que não gostou muito, mas pra quem tem um vô chamado “Justiano” e um pai “Corretino Justo” até que não seria tão anormal assim, e acabou aceitando, mas para ela seria somente “Justinho”.
Antes de voltar para o seu retiro, Justiano ainda ficou uns dias curtindo o seu neto, mas ele gostaria muito que Direitina estivesse com ele, como ela fazia falta, apesar de já passar mais de um ano sem ela, ele ainda não havia se acostumado, a saudade era forte, olhava para o céu e perguntava: “- Por quê? Por quê?... ”
Aproveitando que estava na cidade, ele passou numa loja de materiais de caça e pesca, precisava repor algumas peças para seus equipamentos, ainda na esperança de pegar aquele peixe, ele comprou uma linha mais grossa e resistente, um molinete, e uma vara sobressalente, que estava em promoção, o vendedor ainda tentou lhe vender algumas iscas artificiais, que ele recusou é claro, aproveitou também para comprar mais alguns mantimentos e outras coisas mais...
A viagem de volta transcorreu normalmente, durante ela, Justiano alternava pensamentos, ora no seu neto, ora com sua pescaria, não via a hora de recomeçar sua busca. Chegou no seu retiro, já era umas 16:30 hs. Estava sentado na varanda observando o lago, apesar da vontade de pescar, estava muito cansado da viagem, a idade já não ajudava muito, então resolveu tirar o resto do dia para se recuperar, de repente sentiu que estava sendo observado, ouviu um gemido a suas costas voltou os olhos e se deparou com um pequeno cão, que o observava com um olhar tristonho, estava magríssimo, parecia que não comia à século, o velho chamou o cãozinho, mas este nem se moveu, então ele se levantou e foi para dentro da cabana e logo voltou com um pedaço de pão nas mãos e arremessou diante do animal que ficou olhando, depois se aproximou, ainda meio desconfiado, cheirou o alimento e logo em seguida devorou em um piscar de olho, “- Quer mais é? Tá com fome meu velho? Espera um pouco.” Dizendo isso o velho voltou para dentro da cabana, o cão fez menção em segui-lo, mas parou no degrau da casa e esperou, logo o velho voltou com um pote com leite e pão e deixou a disposição do animal, este agora já mais animado abanando o rabo se aproximou e começou a devorar a comida, o velho ficou observando o animalzinho, ele tinha o pêlo preto com algumas mechas brancas, tinha a aparência de ser já bem velho, era um cão de pequeno porte mas não deu pra identificar a raça, se é que ele tinha alguma, também não tinha coleira, talvez estivesse perdido ou talvez tivesse sido abandonado, já que pelas proximidade não havia nenhum vizinho, bom enquanto não aparecesse ninguém procurando ele cuidaria dele pensou o velho, a essa altura o cão já tinha terminado de comer a comida e deixava Justiano acariciar sua cabeça, ali estava nascendo uma boa amizade, agora Justiano já tinha uma companhia para suas pescarias.
No outro dia o cãozinho já pulava bem mais alegre, já não aparecia os ossos sob o pêlo do animal já estava mais gordinho, Justiano catou um graveto do chão e jogou longe, na esperança de que a cão fosse buscar: “- Vai!! Pega meu velho, vai velhinho!!”, devido a aparência de velho que o animal tinha, Justiano resolveu chama-lo de “velhinho”, o cão saiu em disparada atrás do graveto, chegando no local onde havia caído, o cão se sentou e começou a lamber o graveto, logo em seguida retornou sem trazê-lo de volta, o velho (o homem) balançou a cabeça negativamente e acariciou a do animal, depois foi preparar seus materiais para iniciar a atividade ao qual tanto ansiava.
O dia estava meio nublado, talvez hoje não fosse um bom dia para se pescar, mas Justiano estava ansioso, suas mãos coçavam de tanta vontade, que encarava até um mal tempo, ainda não eram 8 horas quando saiu para o lago, e foi direto ao local onde havia perdido o grande peixe, agora com a companhia do cãozinho, ele já não se sentia tão solitário, volta e meia falava algumas palavras para o animal, como se estivesse trocando algumas idéias. Chegando ao local, ele foi logo arrumando as coisas enquanto o cachorro foi fuçar pelo mato, o tempo estava fechando mesmo, talvez chovesse antes do meio dia. “- Será que o danado ainda está aqui? Será que o urso já não o fisgou primeiro?” indagava o velho meio inseguro, mesmo assim começou suas tentativas, realmente o dia não estava para peixe, ele ficou ali um bom tempo e não viu nem cor de peixe nem peixinho, logo apareceu o velhinho (o cão), abanando o rabicho e se sentou ao lado do homem que pergunto-lhe: “- Por onde andaste? Achou algo interessante? Aqui não deu nem cheiro de peixe.” Falou meio desanimado. Então começou a garoar e não demorou muito a chuva foi engrossando, o velho, que já não tinha uma saúde de ferro, para não pegar um resfriado juntou seus materiais e se mandou para a cabana, esse dia já estava perdido.
Nos outros dias ainda chovia, o velho passou a maior parte do dias sentado na varanda fumando seu cachimbo e bebendo um chá de ervas, ficava pensando em seu neto, imaginava-o ali junto com ele, puxando um peixe na vara e se divertindo muito, ele não queria cometer os mesmo erros que cometera com seus próprios filhos, que devido a profissão, abnegou-se de muitas vezes de passar mais tempo com eles, e agora com seus netos ele tentaria recuperar o que havia perdido, pois durante toda a sua vida ele aprendeu que o que passa não volta mais, mas nunca é tarde demais para se fazer o que se deixou de fazer, ele sabia também que teria a forte concorrência do pai do garoto, pois tudo indicava que este seria um bom pai, até seria um pai coruja, o que Justiano não chegou nem perto de ser, mas agora estava decidido de ser um avô corujão, ah! ele não via esse tempo chegar estava ansioso, a vida ganhou outro sentido, a vida lhe deu outra missão, outra oportunidade de viver.
No outro dia amanheceu com um sol promissor, Justiano acordou mais animado, preparou um rápido café, não esqueceu do lanche para o cão também, o dia parecia que ia ser quente, o velho estava sentindo que hoje o dia prometia, sem falar que ele próprio estava ansioso para puxar o peixe, e talvez essa ansiedade toda que estivesse fazendo com que achasse que o dia seria bom. Logo, já estava com os materiais nas mãos partindo para o seu pesqueiro, com o seu cãozinho atrás é claro, o chão ainda estava meio barrado por causa da chuva, as lamas respingavam nas calças enquanto ele caminhava, mas isso não o perturbava nem um pouco, que continuava com os passos firme em direção ao seu objetivo.
- Ah! É hoje que agarro esse peixe, ou não me chamo Justiano, velho!
- Au, au, au!!!!
Chegaram ao local, o sol já refletia lindamente sobre a superfície do lago, para amenizar o efeito da luz o Velho colocou seu óculos escuro, um velho ray-ban que ele já tinha desde tempo de jovem, mas ainda muito bem conservado e servido ao seu propósito ao qual fora criado. As horas iam passando, e Justiano estava confiante, pois o dia estava bom para peixe, já tinha fisgando um bom número, mas não eram muito grande, todos com menos de um quilo, mas ele estava certo que se aquele peixe estivesse ali ainda, logo, logo estaria na linha e desta vez ele pegaria. O sol já ia alto sua cabeça já começava a assar, foi quando se abrigou abaixo da sombra de uma árvore, no mesmo instante que sua linha começou a fazer uns movimentos estranho, o velho, a princípio achou que era por ter se mexido, alinha estava frouxa, mas começou a correr para um lado, parando e logo em seguido corria em direção contrária, Justiano esticou toda ela e sentiu um peso enorme na ponta, parece que meio sem querer ele havia fisgado algo e pela força do bicho não era pouca coisa: “- Hah!!! Será que você está aí? Seu danado!!!!” vibrava o velho.
Estava recomeçando a batalha, “- É hoje!!!” bradava o velho, o cão que estava ao seu lado, vendo a agitação do homem, começou a latir e correr em volta, como se estivesse na torcida pelo sucesso do seu parceiro, vez em quando parava e olhava para o lago e latia ele realmente parecia faceiro, enquanto o velho, com aquele sorriso nos lábios, lutava para manter o peixe sob controle, impedindo que este fosse para o meio do matagal, puxava e soltava a linha como uma criança maneja com maestria sua pipa em dia de pouco vento. Os minutos iam passando e luta se desenrolava, agora era um jogo de paciência, o vencedor seria aquele que tivesse mais persistência, ambos, certamente eram muito experientes, já haviam transcorrido uns quinze minutos, há essas altura o cão já havia cansado de latir e correr e se encontrava deitado sobre os pés de olhar ainda fixo ora para o lago, ora para o homem, ele agora se tornara um mero espectador. A batalha estava chegando nos momentos decisivos o seu desfecho final estava próximo, tudo indicava uma vitória já esperada. Justiano já ria a toa, estava confiante e satisfeito consigo mesmo, pois sua paciência e persistência estava o recompensando, o peixe deveria estar a uns quinze metro de distância, parecia cansado, já estava vindo com certa facilidade, agora já se debatia na superfície exibindo seu belo corporal prateado de quase um metro de comprimento ou mais, Justiano estava encantado, a fricção em suas mãos fazia seu corpo todo tremer, seu olhos brilhavam vendo aquele peixe ali, tão próximo, pouco menos de dez metros, quase em sua mãos, já preparava o gancho para iça-lo, pois a rede era pequena para aquele peixe, quando de repente, como que num último esforço, o peixe se debate e puxa em direção oposta, pegando o velho de surpresa, que já não esperava uma reação tão forte do peixe, tanto que nem teve tempo de agir, e quando tenta fazer algo já é tarde, a linha se parte e o peixe se vai...o cachorro se levanta de sobressalto aproxima da beira do lago e solta resmungo de lamento “- Unhhhh!” … Novamente o velho fica sem ação, não sabe se ri ou se chora, sente uma frustração tão grande e também uma imensa vontade de jogar tudo dentro da água, arruma suas coisa e volta para casa, por hoje perdera a vontade de pescar. Chega na cabana, ainda perdido em seus pensamentos, como que conseguiu deixar escapar? Como!!! Indignado consigo mesmo ele ajeita umas lenhas aos chutes para preparar uma fogueira, derrepente ele pega um pedaço de toco na mão e se ergue erguendo o toco para o alto e brada: “- Eu juro que ainda vou te pegar, nem que seja a última coisa que eu faça nesta vida!!! Seu maldito peixe duma figa!!!”…
A noite se adentra, o velho está fumando seu cachimbo sentado na varanda olhando para o céu, para as estrelas ou simplesmente olhando para o nada, o certo é que seus pensamentos está no peixão, que por pouco deixou escapar, com a sensação de já estar segurando-o nas mão e ele vai escorregando por entre os dedos como se estivesse segurando um sabonete molhado, que ao se apertar pula da mãos, restando a sensação de um vazio nas mãos. Já é tarde da noite o pulmão começa a reclamar da toxinas, ele começa a tossir e pigarrear, então resolve entrar e tentar dormir, o que talvez hoje seja muito difícil…
E realmente, essa noite foi muito longa, ora ele fica olhando para o teto, ora ele se virava para um lado ora revirava para outro, mas com a cabeça sempre no mesmo pensamento, pegava no sono por alguns minutos, mas logo acordava com um sobressalto, com os braços involuntariamente fazendo os movimentos da fisgada, ele ainda ia acabar ficando maluco com aquilo.
Na manhã seguinte acordou com o corpo um pouco dolorido, talvez de tanto bater com os braços na parede enquanto dormia, esticou o braços para cima se espreguiçando, quando sentiu os músculo retraírem e uma forte dor na coluna, é a idade estava começando a fazer seus estragos. Enquanto preparava o seu café, percebeu que estava acabando seus mantimentos, decidiu ir até a cidade naquela manhã. A vila mais próxima ficava a pouco mais de uma hora e meia dali, em estradas de chão batido e com muito pedregulhos, e que em dias de chuva não era nem bom sair dali, apesar de ter um jipe moderninho com tração nas quatro rodas, para um senhor na idade dele, ficar atolado no meio de uma estrada deserta sozinho, não era uma idéia muito animadora. Mas hoje dia estava quente, talvez a noite viesse uma garoa, quem sabe a tarde ainda ele pudesse pescar, o que na verdade ele já estava ansioso ou até com raiva do peixe que queria pegá-lo de qualquer jeito, e de preferência logo, antes que ele ficasse louco.
Na vila, ele aproveitou e passou no posto de postagem onde mantém uma caixa de correspondência, às vezes seus filhos lhe mandam alguma carta ou jornais, e hoje havia uma carta de seus filhos, dizendo que lhe fariam uma visita “surpresa” neste fim de semana, hoje já era Sexta-feira, então eles já estavam para chegar, pensou ele, teria que comprar algumas coisa a mais para recebe-os, será que seu netinho também viria? Como será que ele estaria? Já teria crescido bastante, afinal já se passaram mais de um mês desde o nascimento. Foi à loja de brinquedo e comprou alguns brinquedos; “- E fraldas?? Será que é bom comprar fraldas também?” Pensou e comprou!!
Chegou em casa já se passavam do meio-dia, preparou algo para comer, o dia estava muito quente, a cerveja ainda estava quente devido a viagem, e mal ele havia colocado no refrigerador, mas mesmo assim não resistiu e tomou uma que desceu “arranhando” a garganta(O ministério da saúde adverte: Beba com moderação, e se beber não dirija e se você tiver menos de 18 anos não beba), e depois foi tirar uma sesta. Acordou já quase às 15 hs, foi para a beira do lago se refrescar um pouco, depois foi dar uma ajeitada na casa, tirar um pouco de pó, pois ele havia ficado um bom tempo entretido em função do peixe que esquecera da casa, mas queria deixar o lugar limpo para receber seu netinho. Eta vovô coruja.
À noite, mal conseguiu dormir de ansiedade, ficava rolando de um lado para outro da cama, amanheceu ainda com sono, meio zonzo quase cambaleando, não conseguia achar seu saquinho de passar café, revirou toda cozinha e nada, desistiu de tomar café acabou optando por um chocolate com leite. Após isso ficou na dúvida, se ia pescar ou se esperava em casa, acabou ficando, e por volta das 9:30 hs o velhinha (cão) começou a rosnar e latir em direção do portão, logo se escutou um barulho de buzina, O velho correu para receber as visitas, no portão se encontrava um Toyota Relux cinza e parecia lotado de gente, Justiano logo reconheceu seus ocupante da parte dianteira, abriu a porteira e tão logo o carro estacionou, saltou para fora do veículo, seus dois filhos mais sua filha e por último sua nora com seu netinho nos braços, cumprimentou a todos com longos abraços e indagando sobre a viagem, apesar da vontade de pegar seu netinho no colo, resistiu e esperou estar confortavelmente sentado para pegá-lo, mesmo assim, ainda meio desajeitado e inseguro. Depois trouxe os presente para ele e foi logo dizendo: “- comprei fraldas para ele também!!!” no que ouviu “- Há tá!!! Tinha que ser o vovô mesmo, comprou fraldas também ??!!” todo deram muita risada disso.
À tarde Justiano foi pescar com seus filhos, foram buscar alguma coisa para a janta, os peixes dali eram muito deliciosos, Justiano gostava de recomendar. Voltaram com uma meia dúzia de peixes, cada um beirando o peso de 1 Kg. Prepararam uma fogueira para assá-los e também espetaram alguns pedaços de carne de boi, ou talvez fosse de vaca, enquanto as mulheres preparavam alguma coisa para acompanhar, os três ficaram em volta do fogo bebendo e falando cada um das suas aventuras, Justiano, a princípio não queria contar sobre o peixe, mas a medida que a bebida ia fazendo efeito, acabou soltando tudo, os filhos não levaram muito a sério, pois acharam muito difícil ter um peixe de 20 kg por aquela zona, pensaram que era mais uma história de pescador, mesmo assim combinaram de na manhã seguinte saírem cedo para conferir o local. Já há essas alturas os assados já estavam prontos, juntaram –se as mulheres e apreciaram a janta. Ficaram conversando até altas horas da noite, o pequeno Justinho já dormia profundamente, cansado da viagem, era a primeira vez que saia para um lugar tão longe e diferente. Para dormir não havia quarto para todos, pois a cabana tinha apenas um quarto, uma sala e cozinha (e um banheiro é lógico). Justiano deixou o quarto para o casal, e junto com os outros foi dormir na sala, ele no sofá e os outros em colchonetes, a noite estava agradável, e devido a bebida e ao cansaço todos adormeceram logo, de madrugada Justiano acordou com um barulho estranho, acostumado com todos os sons daquele lugar, derrepente ouviu algo que era estranho ao ambiente, mas que há muito tempo atrás já havia escutado antes: um choro de bebê... “- Buah, buah, buaaaaaaaaaah!!!!” levantou-se e foi verificar, o pai já acostumado com os choros, respondeu meio dormindo: “- O bebê havia acordado e estranhado o local, ou então estava com fome, ou ainda com dor de barriga ou talvez.....” O garoto ainda reclamou por mais meia hora até pegar no sono novamente. Enquanto isso o velho ficou recordando das noites que ficava sem dormir por causa das choradeiras dos seus filhos, parecia que estava voltando no tempo, e novamente se lembrou de sua esposa Direitina, da paciência e do carinho com que ela cuidava das crianças e viu na sua nora uma imagem semelhante.
Na manhã seguinte acordou meio sonolento, pois bebê ainda acordou várias vezes durante a madrugada, o sol ainda não mostrava sua cara, os pássaros nem cantavam, apenas alguns sapos coaxavam na beira do lago, Justiano preparou um café e acendeu seu velho cachimbo, quando ouviu seu filho mais novo se levantar e falar: “- Isso ainda vai acabar te matando, velho!!!” Tomaram café rapidamente, depois pegaram seus materiais e partiram para o lago, agora os primeiros raios de sol já apareciam por detrás dos pinheirais, Justiano seguia na frente com passos firmes, os outros dois pareciam desacostumados com o mato, Maximiliano carregava um facão em sua mão cortando alguns galhos laterais que lhe batia no rosto, Victório, o mais jovem vinha atrás brincando com o cão, entraram dentro do mato meio serrado, havia uma trilha que cortava o bosque, mas lá dentro ainda estava escuro, então Victório tirou sua lanterna do bolso e logo foi provocado pelo mais velho “- Pra quê isso? Tá com medo é?”. Neste momento, Justiano que se distraíra com a conversa dos dois, sentiu seu pé pisar sobre algo movediço e roliço e logo em seguida alguma coisa agarrar em sua bota, como uma mordida, o instinto faz com que ele dê vários saltos gritando desesperado, o coração acelera o batimento, o corpo esquenta e o sangue lhe sobe à cabeça, por instinto ele sabe que fora mordido por uma cobra, quando se volta para trás procurando a peçonhenta, vê a imagem de Maximiliano descendo o facão sobre o réptil repartindo-a em duas, ajudado pela iluminação da lanterna do outro rapaz. O velho cai sentado e tenta retirar a bota de seu pé e logo é socorrido pelos filhos, que lhe retiram a bota e verificam o estrago, a pulsação do velho está à mil por hora o coração parece que vai saltar para fora e a respiração ofegante e com dificuldade, mas tudo isso é apenas efeito do susto, pois na perna não há sequer um arranhão, a cobra apenas mordeu o couro da bota não pegando o couro do homem. Mesmo assim Justiano parece em estado de cho que, os filhos resolvem cancelar a pescaria e carregam o velho de volta para cabana. Vendo o velho sendo trazido carregado, as moças logo entrão em desespero, mas tão logo tomam conhecimento fatos se acalmam e preparam um tranqüilizante para o velho, com o barulho o bebê também acorda e começa a chorar, sua mãe vai logo em seu socorro. Depois de algum tempo já mais sossegados os ânimos, Justine, a filha caçula, questiona com seus irmãos sobre a segurança de deixar com que Justiano continue vivendo ali, “- Hoje foi só de raspão, mas e da próxima vez?” indaga ela; Maximiliano opina que a decisão é do pai, que ele deve escolher, que ele sabe dos riscos que corre vivendo ali, mas que é o que ele quer, e que não podem interferir nas vontade dele; depois de alguns minutos de discussão a moça, mesmo contrariada, consente com a decisão: “- Não tem jeito mesmo, né!”.
O resto dia eles tiraram para botar os papos em dia, Justiano aproveita para curtir seu netinho, carrega o garoto para todos os lados, leva para ver o cão, para ver as aves e também para o lago e logo sua mãe fica apreensiva: “- Cuidado com as cobras!!!!”. Antes do fim da tarde, se arrumam para a viagem de volta, pois na Segunda-feira todos retornam às suas atividades, colocam as bagagens no carro e se despendem do velho, este fica com o bebê nos braços até o último momento, ele sente uma vontade imensa de não querer mais se separar, mas vence a tentação e o entrega para a mãe; a porta do carro se fecha, Maximiliano fala algumas palavras as quais Justiano não escuta, seu olhar ainda está no menino, dá um aceno, mas o menino só reclama procurando os seios da mãe, o motor do carro ronca mais forte e se põe em movimento, ainda acenando, o velho vê a pick-up se distanciando e ficando cada vez menor até sumir na descida de uma lomba deixando apenas a poeira da estrada…
A noite, sentado e olhando a noite estrelada, o velho reflete sobre a proposta de voltar para a cidade, ficar junto da família, ele não gostaria de ser um incômodo, mas gostaria muito ver de perto seu neto crescer, estar presente nos principais momentos, poder ajudar nos primeiros desafios do pequeno Justo, e se alguma coisa acontecer a si antes que pudesse fazer alguma coisa pelo neto, ele nunca descansaria em paz. Passou quase a noite toda pensando nisso, pensou no que ele estava fazendo ali, o que o levou a se retirar num lugar solitário, colocou tudo na balança, e o seu lado sentimental pesou mais forte no coração, e pela manhã chegou a decisão que votaria para a cidade, mas não antes de terminar o que começou: a sua batalha com o peixe, prometeu a si mesmo que só sairia dali depois que pegasse Aquele peixe, pois além de tudo ele era um velho muito teimoso.
Nos dias que se passaram, ele ainda andava meio receoso devido ao incidente da cobra, já não ia muito cedo e nem voltava muito tarde das pescarias e sempre andava perto do cachorro, de preferência atrás dele, pois assim qualquer coisa que acontecesse, aconteceria primeiro com o animal. Justiano andava desanimado, ou talvez fosse impaciência, pois os dias iam passando e nada dAquele peixe voltar sem falar que ele estava louco pra ver seu neto novamente, agora ele já estava quase desistindo do peixe, afinal que importância tinha pegá-lo ou não, era apenas para alimentar seu ego ou uma questão de honra, enquanto não decidia continuava a passar os dias ali, à beira do lago com a vara nas mãos e a isca na água.
Certo dia, ele acordou com uma sensação de que algo bom iria acontecer, mas durante toda sua vida, ele percebera que: para que acontecesse algo bom primeiro acontecia algo ruim, e que quando a sensação era de algo ruim, esse algo sempre vinha após algum acontecimento bom, portanto as essas alturas da vida já não sabia se a sensação de algo bom era realmente boa ou ruim, mas também já estava vacinado, para que nada o pegasse de surpresa. O dia estava ensolarado a superfície do lago brilhava como nunca, parecia diferente dos outros dias, parecia um lago diferente, não aquele que ele estava acostumado a pescar todos os dias, o lago parecia convidativo, provocante, insinuante ou até mesmo intimando o velho a pescar, e realmente até na prática o dia estava muito bom para pescar, em menos de uma hora o velho já estava puxando o terceiro peixe de bom tamanho, beirando mais de 50cm e quase dois quilos, dois ele resolveu guardar dentro da rede para fazer assado mais tarde, os outros ele devolveu para água, pois ele sempre só pegava o necessário, escolheu o menor dos três, retiro-o do saco e colocou mansamente na água, o peixe deu um rebolada e mergulhou para o fundo do lago, o resto do dia ele pescaria na esportiva. Mais alguns peixe depois, e o momento que ele tanto esperava chega, um forte puxão faz a vara vergar, habilmente ele consegue soltar a linha, evitando que a vara lhe escapasse das mãos e também com que ele caísse na água, mas o peixe continua levando a linha, parece que está mais forte do que antes e puxa com uma ferocidade impressionante, a linha que deveria estar a uns 30 metros quando o peixe mordeu, agora já está quase o dobro e o peixe continua a levar, a vara treme nas mãos do homem, a ficção é tanto quanto o suor que lhe cai pela face, mas o suor não é pelo calor e sim pelo medo de perder novamente Aquele peixe, o grosso rolo inicial do molinete agora já resta apenas poucas voltas de linhas, se o peixe levar toda a linha, certamente ele irá perde-lo pensa o velho, ele calcula que já tenha levado mais de cem metro de linha, o velho começa a segurar mais evitando que o bicho puxe mais linha e com a maestria de sempre controla os movimentos, evitando que ele vá para os rochedos e para os galhos, após 15 minutos o peixe parece cansar, ou apenas está dando uma pausa, talvez estivesse recuperando suas forças, mas o certo era que a batalha ainda estava longe de terminar, nisso aparece o cachorro, chega latindo e saltitante, parece vibrar com a luta do dono que lhe fala: “- Calma velhinho, está só começando, isso ainda vai longe, pode ficar esperando sentado.”
Justiano já conseguiu recuperar a metade da linha, mas o bicho ainda não desistiu, os dois lados continuam numa luta de nervos, um esperando que o outro cometa um erro, como se essa fosse a batalha final, mas agora o homem está mais concentrado nada lhe tira a atenção, ele não quer cometer os mesmos erros das outras vezes, toma todo cuidado o que ainda acha que é pouco e a linha continua na dança do vai e vem, agora já mais vem, do que vai, mas Justiano está vacinado contra a euforia, enquanto não estiver com o peixe nas mãos ele não irá relaxar, neste momento diante dos seus olhos, sob a superfície do lago vê emergir num salto gigantesco uma criatura prateada, vistosa, brilhando com o reflexo do sol, e caindo na água fazendo um estrondo de se sentir dentro do coração, fazendo o do velho bater mais forte e rapidamente, ele sente o coração querer sair pelo peito, pela boca, pelo barriga e pelo etc., etc... mas mesmo assim continua firme sem se deixar levar pela emoção, e o peixe continua a saltar, tentado desesperadamente se livrar do seu oponente. “- Vamos lá, só mais uns 20 metros...” fala o velho mordendo os lábios e fazendo figa, o cão começa a latir incessantemente e logo é xingado pelo homem: “- Quieto velhinho está me deixando nervoso! Falta só mais um pouco agora, olha que beleza!!” E realmente parecia que restava só mais um pouco, a luta estava decidida, o peixe já não tinha mais forças para lutar, já não se debatia, não oferecia resistência, a não ser do peso do seu próprio corpo, será que já tinha se entregado, mas o velho estava esperto, não esquecerá da última vez, quando perdeu o peixe no último segundo, mas o cão continuava a latir, agora já um latido mais nervoso, parecia que estava querendo enxotar alguém, Justiano não queria se distrair, mas ouviu atrás de si um grunhido que não era de cachorro, girou a cabeça rapidamente sobre o pescoço uma vez e girou uma Segunda vez para conferir o que os seus olhos viram, uma sombra enorme se aproximava em sua direção e entre eles apenas o pequeno cão o separavam; com as patas dianteiras erguidas e a boca aberta com os dentes a mostra, um enorme urso avançava, o velho, se fosse mais velho teria morrido de susto naquela mesma hora, desesperado, não pensou duas vezes, soltou tudo e saltou para dentro do lago, nadando até uma pequena ilha feita de uns rochedos que se encontravam a uns 50 metros da beira, a essas alturas o cachorro também já tinha se mandado dali e entrado no meio do mato, mas o urso não fez nenhuma menção em seguir tanto o animal como o homem, a fera se aproximou da beira do lago, Justiano achou que viria atrás dele, mas ela parou e com as patas dianteiras retirou o saco onde se encontravam os peixes guardados, o velho escondido atrás das pedras observava tudo e o urso com uma habilidade impressionante retirou os peixes de dentro do saco e devorou o primeiro, volta e meia erguia a cabeça procurando pelo homem, a primeira refeição durou uns 10 minutos, o que para Justiano pareciam horas intermináveis, o urso colocou o segundo peixe na boca e partiu caminhou em direção do mato entrando e sumindo dentro dele; “- O bicho só queria o seu almoço! Que danado!” bradou o homem. O velho esperou ainda umas meia hora antes de sair do seu esconderijo, quando tudo parecia calmo, viu o cachorro retornar ao local, nadou de volta para beira, recolheu seu material, e se lembrou do peixe, a vara tinha sumido de vista, certamente o peixe teria levado consigo, Justiano soltou uns palavrões e pensou que a natureza estava se protegendo, sentiu que não era pra ele capturar aquele peixe, ainda assustado e com medo de dar de cara com o urso juntou as coisas rapidamente e foi para a casa. Chegando em casa, trocou as roupas encharcadas e se atirou na preguiçosa, seu corpo ainda tremia, acendeu seu cachimbo para tentar se acalmar, a imagem do urso bem na sua cara ainda estava bem nítida, o cão já brincava como se nada tivesse acontecido, o dia já estava perdido para o velho, pois ele precisaria do resto do dia para se recuperar.
E durante o dia todo, não conseguiu pensar em outra coisa, e toda hora ficava olhando para trás e em sua volta, procurando a sombra do urso, ou imaginando o urso em qualquer sombra, bastava o cachorro latir para que Justiano já se arrepiasse, ele ainda ia acabar ficando louco ou talvez só meio neurótico. A noite também não foi muito diferente, quase não pregou os olhos, ao menor ruído já se erguia, sem falar dos pesadelos que vinham e iam constantemente em sua cabeça.
Pela manhã, acordou cansado, quando viu o cão lembrou de agradecer por ter segurado urso enquanto estava distraído: “- Oh meu velhinho, você me salvou, e eu só agora me percebi disso, se não fosse você, não sei se estaria aqui ainda, oh meu cãozinho valente!!” e afagou o animal enquanto lhe dava o café da manhã. Depois ergueu-se e espreguiçando-se olhou para o lago, o sol brilhava sob as árvores refletindo nas águas, um dia calmo e bonito se anunciava, foi quando notou algo diferente no canto do lago, acompanhado de um coro de “zum zum”, correu para perto da margem do lago, notou que alguma coisa boiava, parecia um pedaço de tronco se não fosse pelas inúmeras moscas que voavam em volta e pelo cheio indigesto que emanava. “- Não acredito! Não pode ser!” Ele não queria acreditar no que achava que era aquilo, pegou um ramo e enxotou as moscas, e pode comprovar aquilo que não queria, o sol refletiu seu brilho sobre aquele corpo prateado de mais de um metro e bem inchado, já meio putrificado pelos estragos que as moscas fizeram, notou algo que lhe deu a certeza, uma das suas iscas ainda estava presa na boca do bicho, este estava bem judiada um dos maxilares estava quebrado, certamente resultado das batalhas travadas, Justiano a princípio se sentiu uma sensação de vitória frustada, não era dessa forma que ele imaginou para o final da história, ainda olhando para corpo do peixe, sem saber por quê, começar a vir lembranças de toda sua vida, em que passou defendendo os poucos afortunados e injustiçados, defendendo as vidas das pessoas, e agora ele estava ali olhando para o corpo sem vida de um ser da natureza ao qual ele fora o principal culpado, depois de toda essa reflexão, seu sentimento agora era de ter sido derrotado...
FIM!


